No mês de setembro, a Farsul (Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) emitiu comunicados destacando dois desafios significativos para a safra gaúcha: a escassez de diesel e a diminuição no financiamento disponível para os agricultores. Paralelamente, o Copaaergs (Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Estado do Rio Grande do Sul) divulgou um boletim apontando os riscos associados ao fenômeno El Niño para a produção agrícola na região.
Os representantes do setor agrícola enfrentam um panorama repleto de dificuldades. Os produtores têm registrado atrasos e limitações na entrega de óleo diesel, exatamente quando se inicia o plantio da safra de verão. Além disso, a Farsul revelou que o financiamento destinado à agropecuária brasileira encolheu 25,8% nos últimos 12 meses. O relatório ainda indicou que as previsões climáticas apontam para um excesso de chuvas em todos os estados da Região Sul.
Diesel
Durante setembro, a Farsul enviou ofícios à ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) relatando as dificuldades enfrentadas para acessar o combustível. Segundo a Federação, situações semelhantes já ocorreram entre março e abril deste ano, durante as colheitas de arroz e soja.
Naquela oportunidade, conforme informado pela Farsul, postos e municípios encontraram-se com restrições no fornecimento, resultando em operações agrícolas paralisadas e preços do diesel alcançando até R$ 9 por litro. As dificuldades afetaram aproximadamente 170 municípios, impactando serviços públicos essenciais. A Farsul destacou que a Refap (Refinaria Alberto Pasqualini) estava operando normalmente e possuía estoques adequados naquele período.
Atualmente, o problema ressurge. A Farsul alerta que a falta de combustível pode atrasar o início das culturas, diminuir a área plantada e prejudicar a produtividade das lavouras.
Além disso, foi reportado um aumento de 21,1% no preço do diesel S10 (que subiu de R$ 5,97 para R$ 7,23 por litro), resultando em uma estimativa de R$ 612,2 milhões adicionais nos custos diretos das operações mecanizadas nas principais lavouras do estado. Em um cenário mais pessimista, com o preço do diesel atingindo R$ 9 por litro, as perdas potenciais poderiam chegar até R$ 1,47 bilhão.
A ANP afirmou que o abastecimento de diesel no Brasil está ocorrendo normalmente e não há desabastecimento em nenhuma região. No entanto, reconhece que tem acompanhado relatos esporádicos sobre dificuldades na aquisição de diesel por alguns agentes, especialmente o S500.
Financiamento
Além dos altos preços dos combustíveis, o acesso ao crédito também se configura como um desafio importante para os agricultores. A Farsul informou que a área financiada com crédito rural caiu de 34,2 milhões de hectares em julho de 2025 para 25,4 milhões em julho de 2026, segundo dados do Banco Central.
Essa retração ainda não é refletida nos principais indicadores econômicos observados atualmente — como o PIB do agronegócio e a balança comercial — que apresentam resultados favoráveis no momento.
A Farsul atribui essa discrepância à defasagem no calendário agrícola. Os números atuais refletem áreas cultivadas e financiadas antes da intensificação recente da chamada “crise de crédito”.
Os impactos da queda no financiamento deverão ser sentidos a partir da safra 2026/27, cuja plantação se inicia entre setembro e novembro. No Rio Grande do Sul, essa queda foi ainda mais acentuada, com uma redução de 29,3% na área financiada em comparação à média nacional.
Carteira de crédito
Conforme indicado pela Farsul, um dos fatores que contribuem para essa diminuição está relacionado à carteira de crédito rural. O percentual de operações com atraso ou inadimplência dobrou nos últimos dois anos. Além disso, a entidade relaciona essa situação às enchentes ocorridas em abril e maio de 2024 que afetaram diretamente a capacidade financeira dos produtores gaúchos.
Outro fator relevante é a taxa Selic elevada em 14% ao ano; isso limita as opções fiscais disponíveis para conter os custos oficiais devido ao subsídio governamental sobre parte do crédito rural. Além disso, desde janeiro de 2025 está vigente a Resolução CMN 4.966 que exige dos bancos avaliações prospectivas sobre riscos financeiros ao invés de apenas analisar débitos antigos; isso tende a aumentar a cautela na concessão desse tipo de crédito.
Mercado de capitais
A Farsul observa que embora os instrumentos financeiros destinados ao crédito rural tenham registrado crescimento no país, na safra 2025/26 as CPR (Cédulas de Produto Rural) totalizaram R$ 377,8 bilhões — uma redução de 8% em relação ao pico da safra anterior — indicando uma perda de fôlego nesse principal mecanismo privado.
Ademais, ferramentas como CRA e Fiagro demandam escala e acesso aos mercados financeiros que beneficiam principalmente grandes produtores e agroindústrias. Para pequenos agricultores — tradicionalmente mais dependentes dos bancos e do Plano Safra — as alternativas são limitadas.
El Niño
O Boletim 79 do Copaaergs informa que nesta primavera haverá uma forte influência do fenômeno El Niño nos Estados da Região Sul; isso complicará um cenário já desafiador.
“As chuvas frequentes diminuem os intervalos propícios para manejo das lavouras e dificultam o trabalho das máquinas nas áreas agrícolas. Essa condição pode comprometer tanto a uniformidade da emergência das plantas quanto reduzir o estande das lavouras de soja e milho da primeira safra — fatores cruciais para garantir uma boa produtividade final”, ressalta o Copaaergs.
No Rio Grande do Sul, as precipitações podem ultrapassar até mesmo os valores históricos registrados no trimestre por cerca de 200 milímetros. Os efeitos inerentes ao El Niño tendem a ser mais notáveis entre outubro e novembro; entretanto podem ocorrer também nos meses quentes seguintes com menos regularidade.
Històricamente falando, chuvas intensas associadas à temperaturas médias ou superiores têm potencializado o desenvolvimento das culturas durante o verão; porém uma menor incidência solar durante esse período poderá criar obstáculos adicionais ao planejamento da safra prevista para 2026/27.
Projeção da Safra 2026/2027
As projeções preliminares para a Safra de Grãos da Verão foram apresentadas na última terça-feira (1º), durante a realização da 49ª Expointer. O levantamento abrangeu quase todos os municípios produtores dedicados ao cultivo da soja, milho (incluindo silagem), feijão e arroz entre os dias 10 e 24 de agosto.
Conforme as primeiras estimativas obtidas nessa avaliação preliminar, espera-se que o estado alcance uma produção total aproximada de 35.639.371 toneladas — representando um incremento de 8,64% em relação à safra anterior. No entanto,a área destinada ao cultivo deve apresentar uma leve redução estimada em 0,37%, com previsão inicial para cultivo abrangendo cerca de 8.428.151 hectares.
A cultura mais negativamente impactada por esse contexto é o arroz; segundo informações da Emater/RS-Ascar há expectativa tanto na diminuição da área cultivada quanto na produção dessa cultura específica.
Para as demais culturas analisadas apesar das adversidades mencionadas anteriormente , projeta-se uma ampliação na produção gaúcha; isso ocorre mesmo diante da redução nas áreas plantadas devido principalmente ao aumento nas plantações soja , feijão e milho .
Arroz
A expectativa é que sejam cultivados apenas 861.779 hectares , contra 891.909 hectares registrados na safra anterior — resultando em uma diminuição aproximada de 3,4%. Ademais , tanto produção quanto produtividade devem apresentar quedas significativas: redução esperada de 5 ,49% na produção e 2 ,21% na produtividade .
Assim , as 7 .970 .527 toneladas produzidas na safra 2025/26 devem cair para 7 .533 .037 toneladas , enquanto produtividade média deve recuar de 8 .939 kg / ha para 8 .741 kg / ha .
Soja
A soja se destaca como motor dessa produção com projeção totalizada em 21 .151 .135 toneladas , representando um aumento de 15 ,32 % comparado à safra passada . Para esta nova safra , estima-se plantar cerca de 6 .645 .384 hectares , número ligeiramente inferior em relação aos6 .707 .017 hectares da safra anterior (0 ,92 % menor ).
Feijão
No caso do feijão da primeira safra houve previsão positiva com aumento projetado de 8 ,10 % comparativamente à última colheita , resultando em cerca de 43 .244 toneladas , representando 1 ,20 % superior à última colheita . A área destinada ao cultivo desse produto é estimada próxima aos24 .587 hectares , ou seja,
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