Meio ambiente e causa animal são principais razões para jovens aderirem ao vegetarianismo, aponta pesquisa da PUC-RS


Mais de 260 jovens de 18 a 24 anos foram ouvidos por estudo do 7º semestre do curso de Publicidade. Preocupações éticas despontam como motivos mais fortes do que o cuidado com a saúde. Grupo de estudantes da PUCRS realizou levantamento com mais de 260 jovens a respeito do vegetarianismo
Arquivo pessoal
A preocupação com o meio ambiente e com o bem estar animal estão por trás da decisão da maioria dos jovens que se tornaram vegetarianos, como aponta uma pesquisa realizada em uma disciplina do curso de Publicidade e Propaganda da PUC-RS, no primeiro semestre de 2020, e divulgado na semana passada pela universidade.
O estudo reuniu 261 jovens, de 18 a 24 anos, que participaram da fase quantitativa da pesquisa, dos quais 146 são vegetarianos e 115, não vegetarianos. Confira abaixo o detalhamento dos participantes.
Entre os que aderiram à dieta sem consumo de carne, 86,3% afirmaram ter tomado a decisão por preocupação com o meio ambiente, e 80,8% apresentaram como motivo a proteção aos animais.
Já preocupações com a saúde foram citadas por 33,5% dos participantes.
As entrevistas foram realizadas online pelas alunas Cristiane Andrade, Fernanda Koiky, Gabrielly Souza, Julia Rocha, Laura Giordani e Maria Luiza Olsson, do sétimo semestre do curso.
“A gente nota o mercado mudando e tentando se adaptar, novas marcas surgindo pra tentar acompanhar esse público, e marcas consolidadas tendo que repensar os produtos e criar novas linhas”, avalia Fernanda, de 20 anos, que se tornou vegetariana no ano passado. “Isso é muito bacana, e nos motivou a entender como é esse consumidor jovem que está descobrindo uma forma mais responsável, não só de alimentação, mas de consumo”, completa.
Fernanda é um exemplo do dado apresentado pela pesquisa. “Lá pelo ensino médio comecei a ter mais acesso a esse tipo de informação. Alguns professores me mostraram documentários [sobre o impacto da indústria da carne no meio ambiente], e isso tem me incomodado um pouco”, conta.
“Minha questão com o vegetarianismo nunca foi relacionado à saúde, o que me incomodava era a problemática da indústria mesmo, a crueldade com animais”, comenta Fernanda.
Pesquisa foi respondida por 261 pessoas de 18 a 24 anos de Porto Alegre e Região Metropolitana
Reprodução
Influência da família
A pesquisa mostrou ainda que 60,87% dos respondentes, tanto entre os que são quanto os que não são vegetarianos, afirmam que o consumo de carne pela família é um empecilho para manter ou aderir à dieta.
“Recebemos muitas respostas que nos mostraram que é muito difícil mudar a alimentação quando se convive com outras pessoas que já têm uma rotina alimentar. E aqui, no Sul, isso se agrava bastante, por causa do costume do churrasco de domingo. É uma tradição que junta as duas coisas”, diz a estudant.
O professor e orientador da pesquisa, Ilton Teitelbaum, diz que uma tendência comportamental de desconstrução e ressignificação da alimentação pode ser observada.
“Um dos pontos que a gente vem notando é a desconstrução de aspectos que antes eram dogmáticos. Muita coisa foi ‘desdogmatizada’. Acho que o próprio paladar passa por essa ressignificação, essa é a questão chave da história”, afirma.
A defesa de uma causa se alia a esse movimento, comenta o professor. “Muitos alunos pararam de comer carne após vídeos de abatedouro”, menciona.
O professor ainda observa que, mesmo entre jovens que não adotam a dieta vegetariana, a redução do consumo de proteína animal é “um caminho sem volta”, e não tende a ser algo passageiro.
“Ainda tem aspectos culturais que vão manter a carne na vida das pessoas”, diz, citando a presença dos churrascos na cultura gaúcha.
Importância do acompanhamento nutricional
Nos consultórios de nutricionistas, a presença de jovens buscando aderir a uma dieta com restrições à carne vem crescendo, como observa o professor do curso de Nutrição da PUC-RS, Giuseppe Potrick Stefani.
O desafio é fazer a transição da dieta com carne para a sem carne evitando o exagero de produtos industrializados e incentivando que o jovem prepare as próprias refeições. “Sinto mais dificuldade de levá-los para a cozinha. O bom vegetariano é aquele que manipula os seus alimentos”, reflete.
A participação dos pais é determinante nesses momentos. “Muitos têm bloqueio, preguiça, ausência de estímulos dos pais, que às vezes não conhecem as opções”, diz o professor.
E o acompanhamento de um profissional é crucial para garantir que a supressão do consumo de proteína seja substituída por outros nutrientes.
Esses casos o professor batizou de “vegetarianos batata frita”, quando a pessoa deixa de comer carne, mas aumenta o consumo de produtos de baixo valor nutricional.
“Primeiro aspecto é o cansaço. A gente usa reservas de vitaminas e minerais. Essas reservas começam a se exaurir. Falta de vitamina D mais deficiências do estoque de ferro pode ser início de uma anemia”, alerta.
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