Temas como economia criativa, sustentabilidade, expressões singulares, combate ao preconceito são discutidos pelos grupos em rodas de conversa, reuniões e oficinas.


Moradores transformaram um terreno abandonado em horta comunitária no Centro de Porto Alegre — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Moradores transformaram um terreno abandonado em horta comunitária no Centro de Porto Alegre — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Diferentes coletivos de Porto Alegre se mobilizam e tentam transformar, por meio da união e da diversidade, o cenário da cidade, que completa 247 anos nesta terça-feira (26). Temas como economia criativa, sustentabilidade, empoderamento, combate ao preconceito e à violência contra a mulher são discutidos pelos grupos em rodas de conversa, reuniões e oficinas, e se transformam em ações.

Conheça algumas dessas iniciativas desenvolvidas em Porto Alegre:

Movimento de inovação social

Encontro do POA Inquieta: transformação da cidade a partir da visão da economia criativa — Foto: Arquivo pessoal

Encontro do POA Inquieta: transformação da cidade a partir da visão da economia criativa — Foto: Arquivo pessoal

Conhecido como Porto Alegre Inquieta, o projeto surgido há mais de um ano em Porto Alegre consiste em um coletivo de pessoas conectadas dentro de um modelo de organização social, sem que haja uma hierarquia. A iniciativa se baseia na transformação da cidade a partir da visão da economia criativa.

O empreendedor digital e professor universitário Cesar Paz, um dos fundadores do projeto, conta que o coletivo começou com um grupo pequeno e se expandiu. “Eu convidei umas 15 pessoas para discutir economia criativa em Porto Alegre”, lembra.

“Eu entendia, quando chamei para essa primeira reunião, e depois isso passou a fazer parte de um entendimento de muito mais gente, que existem muitas expressões de economia criativa na cidade de Porto Alegre totalmente desarticuladas. Uma coisa não conversa com a outra. Não existe um projeto nesse sentido, de facilitar a construção de economia criativa, que é da vocação da cidade”, explica.

Encontro do grupo de articuladores do POA Inquieta — Foto: Arquivo pessoal

Encontro do grupo de articuladores do POA Inquieta — Foto: Arquivo pessoal

“Muitas pessoas se engajaram nessa proposta”, conta Paz. “Eu fiz um artigo que se chamava ‘Porto: Alegre Inquieta’, que acabou dando nome para esse primeiro grupo de WhatsApp que esgotou em poucas semanas. Daquele grupo original, surgiram mais quatro grupos. E, desses quatro, geraram mais quatro”, acrescenta.

O projeto se baseia em uma forma orgânica e sistêmica de organização e crescimento. O empreendedor explica que a iniciativa não se limita a conversas pelo WhatsApp.

“São 35 grupos e todos eles têm encontros presenciais. As reuniões têm como objetivo discutir a questão da transformação das cidades a partir de uma visão de economia criativa. Esses encontros são muito baseados, inspirados nas rodas de conversa de Medelim, uma cidade que se transformou, nos últimos 20 anos, da cidade mais perigosa do mundo para a cidade mais criativa do mundo”, acrescenta.

Atualmente, são quase 2 mil pessoas envolvidas na iniciativa, gerando discussões e construindo projetos. “Tem sido um movimento importante na cidade, reconhecido dessa forma. O Poa Inquieta ajudou na construção do Pacto Alegre, que é a construção de um novo pacto para a inovação, envolve poder público, as universidades, iniciativa privada e a sociedade de uma forma geral”.

Projeto se baseia em uma forma orgânica e sistêmica de organização e crescimento — Foto: Arquivo pessoal

Projeto se baseia em uma forma orgânica e sistêmica de organização e crescimento — Foto: Arquivo pessoal

Outros projetos desenvolvidos pelos grupos do Porto Alegre Inquieta foram, por exemplo, levar várias pessoas para conhecer a realidade de Medelim, mapear toda a economia criativa existente em Porto Alegre e criar uma rádio que vai abordar economia criativa na capital gaúcha.

“A economia tradicional trabalha com fontes de energia, matéria-prima, transformação de tudo isso para gerar riqueza. A economia criativa trabalha com recursos intangíveis, que são o conhecimento, a experiência, a criatividade. E esses são recursos inesgotáveis. Então, em qualquer projeto de desenvolvimento local ou regional, necessariamente, se tem que pensar na economia criativa”, diz o fundador.

Paz vê potencial em Porto Alegre. “Pela produção de conhecimento, pela produção de diferentes expressões, na moda, no design, no audiovisual, na tecnologia, ela é fértil na produção desses recursos intangíveis. Basta ver tudo o que a cidade produz”, afirma.

Do terreno abandonado à horta comunitária

Horta comunitária funciona em terreno de Porto Alegre — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Horta comunitária funciona em terreno de Porto Alegre — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Há dois anos, um grupo de moradores da capital gaúcha decidiu transformar um terreno abandonado em uma horta comunitária. Foi assim que nasceu o grupo Associação das Hortas Coletivas do Centro Histórico (AHCCH).

A publicitária e jornalista Carmen Fonseca, presidente da associação, conta que a iniciativa atraiu não apenas a vizinhança do bairro, mas pessoas de outras regiões de Porto Alegre. “Moradores, simpatizantes, pessoas de todo lugar, de outros bairros, se engajaram”, relata.

A horta fica em um terreno particular, que foi cedido por meio de um contrato de comodato – empréstimo gratuito, com devolução após um período determinado. Um cadeado é colocado no local para que as plantações não sejam depredadas. Todos os interessados em utilizar a horta fazem parte de um grupo de WhatsApp e sabem a senha do cadeado.

“Temos um lema que é ‘quem planta, colhe'”, conta Carmen.

Iniciativa no Centro de Porto Alegre atraiu moradores de várias regiões da Capital — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Iniciativa no Centro de Porto Alegre atraiu moradores de várias regiões da Capital — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Antes da horta ser feita, o terreno estava sujo e abandonado. Muitos mutirões foram feitos no local. A diretoria do grupo AHCCH é composta por cerca de 10 pessoas, mas o engajamento é bem maior.

“Fizemos vaquinhas para arrecadar dinheiro para arrumar o local e mutirões. Sempre vai uma galera nessas ações”, relata Carmen.

No ano passado, o projeto foi selecionado em um edital do Fundo Socioambiental Casa, uma organização não governamental, sem fins de lucro, que financia iniciativas socioambientais de ONGs e grupos comunitários na América do Sul.

“Conseguimos com a primeira parte do dinheiro do edital dar uma melhorada no terreno. Conseguimos nivelar, está bem bonito, demos melhores condições ao plantio”, afirma Carmen.

Moradores já conseguiram colher, na horta comunitária, tomates, cenouras, gengibre, abacates, amoras e bananas. “Fizemos também um espiral de ervas, e um canteiro com as crianças”, acrescenta a jornalista.

Horta comunitária no Centro de Porto Alegre, durante mutirão realizado no último sábado (23) — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Horta comunitária no Centro de Porto Alegre, durante mutirão realizado no último sábado (23) — Foto: Rose Rolim/arquivo pessoal

Com a segunda verba do edital, o objetivo é começar a oferecer oficinas no local. Pessoas da própria associação e convidados vão ministrar as aulas. “Serão oficinas de fitoterápicos, de como aproveitar restos de alimentos, como fazer sabão ecológico, xarope”.

O projeto vai participar da virada sustentável, que será realizado em abril em Porto Alegre.

“As pessoas vão poder conhecer o projeto. Vamos fazer uma identificação das plantas. Eu acredito na revolução através da comida. Plantar teu alimento, contribuir para isso. Você adquire paciência, um aprendizado super importante. Além disso, a horta comunitária é uma forma de conviver”, acrescenta Carmen.

Resistência e trocas de experiências entre mulheres

Jurada durante o Slam das Minas do Rio Grande do Sul — Foto: Olho Mágico - projeto fotográfico/divulgação

Jurada durante o Slam das Minas do Rio Grande do Sul — Foto: Olho Mágico – projeto fotográfico/divulgação

A primeira edição do Slam das Minas do Rio Grande do Sul, grupo que fomenta construções coletivas por meio de trocas de experiências de mulheres, aconteceu na Praça da Matriz, em Porto Alegre, em dezembro de 2016. A iniciativa foi inspirada pelo movimento Slams no Brasil e, principalmente, pelo mesmo projeto que já existia em São Paulo e no Distrito Federal.

“O Slam é organizado por mulheres cis [que se identificam com o gênero feminino], trans e não binários [que não se consideram homem e mulher], de todas etnias, classes sociais, cores e sabores. Somos poetas, vindas de diversos lugares da cidade de Porto Alegre e da Região Metropolitana”, afirma a participante do coletivo, uma das slammer master, Daniela Alves da Silva.

Os encontros do grupo ocorrem sempre nos segundos sábados do mês, na Praça da Matriz. O projeto também é levado para outros lugares por meio de palestras, oficinas, rodas de conversa e pocketpoesia.

Slam das Minas tem palestras, oficinas, rodas de conversa e pocketpoesia — Foto: Olho Mágico - projeto fotográfico/divulgação

Slam das Minas tem palestras, oficinas, rodas de conversa e pocketpoesia — Foto: Olho Mágico – projeto fotográfico/divulgação

“O Slam das Minas RS é um espaço de acolhimento e reconhecimento para todas as manas e, ainda, é um espaço de expressões singulares”, acrescenta Daniela.

O projeto cria um espaço para produção de trocas, diversidade e de autonomia, construindo uma sociedade mais justa para que possa ocorrer a representatividade das mulheres.

“A principal importância, para mim, é por ser um espaço construído coletivamente e autogestionável. É um espaço de resistência e acolhimento de minorias, onde trocamos nossas vivências e nos fortalecemos através da poesia”, afirma.

Fiscalização do poder público e transformação

Em ação no Parque da Redenção sobre violência contra a mulher, sapatos simbolizam vítimas de feminicídios — Foto: Arquivo Minha Porto Alegre

Em ação no Parque da Redenção sobre violência contra a mulher, sapatos simbolizam vítimas de feminicídios — Foto: Arquivo Minha Porto Alegre

O projeto Minha Porto Alegre foi criado em 2015, inspirado no Rio de Janeiro. Atualmente, a iniciativa conta com 14 mil membros e 18 vitórias – que são as mobilizações que o grupo ajudou a conquistar.

“A gente é apartidária independente, cocria soluções para a cidade, fiscaliza o poder público e modifica políticas públicas”, conta a cofundadora Carolina Soares.

Ela relata que quando o grupo foi criado, o coletivo percebeu que havia iniciativas interessantes em Porto Alegre, mas que não conversavam entre si.

“A inteligência coletiva dá certo na hora de tomada de decisão. Há muita inteligência coletiva em Porto Alegre, há muita gente disposta a colocar a mão na massa sobre os mais diferentes aspectos de horta urbana, mobilidade, redução da violência contra a mulher”, explica a cofundadora.

Algumas pautas abordadas pelo Minha Porto Alegre são sinalização para o trânsito, iluminação para as ruas, transporte público e violência contra a mulher. “Se a gente se organiza, conversa com os políticos e fiscaliza o que eles estão fazendo, a gente tem mais chance de ter uma cidade mais próxima do que a gente espera dela”, relata Carolina.